Dali da janela não se via muito. Sombra de um prédio noutro, traços fortes de cidade grande e população desesperada. Nela, traços delicados de feição leve e alma destemida.
Desenhava o chafariz há muito abandonado, cuja beleza cinza cabia na vista da janela. Não era a primeira nem a última vez a desenhá-lo, e quando os terminava, nenhum desenho ficava igual ao outro.
Tinha tato para notar detalhes, para achar o melhor ângulo de tudo e para cuidar de animais.
Não sabia e nem queria ter tato com humanos.
O copo de café no canto da mesa era tão presente que quase virou enfeite. A cruz no topo da cama sempre a lembrava de rezar, mas ela pensava que só eram válidas as orações das quais se lembrava de fazer sozinha. Seis garrafas de vinhos caros aguardavam ocasiões especiais numa estante da cozinha, mas a simplicidade em que vivia a fazia ter pequenas comemorações internas todos os dias. Dessa forma, ou tudo se tornava especial, ou nada jamais seria especial.
Linear era bom. Linear era sereno, e sereno também era bom. Sereno era leve, e ela não convivia com peso. Não havia espaço pra ele.
Gostava de ficar horas na banheira com o rádio ligado. Não que ela o ouvisse de fato, mas os ruídos estranhamente a ajudavam a se desligar de tudo.
Lotus, a gata, aparecia vez ou outra e logo fugia de novo. Demorou a escolher o nome, pois entendia bem demais a natureza independente e desapegada dos felinos, e sabia que ao escolher um nome, estaria aceitando a gata como parte de si.
Mas Lotus sempre voltava, mesmo que custasse tempo. E por isso, Lotus era Lotus.
Quando em lugares lotados, andava olhando pra baixo e imaginando o rosto das pessoas a partir de seus sapatos. Quase nunca olhava pra cima pra conferir se tinha chegado perto.
Quando em lugares vazios, nunca descia os olhos. Fitava os detalhes como se os filmasse, e quando se sentia indagada, certamente desenharia (ou no mínimo, fotografaria) a cena pra ter mais tempo de se encantar depois.
Preferia as noites. Preferia doces. Preferia cores frias. Preferia conviver consigo a conviver com outros. Preferia o inverno. Preferia a cidade, ainda que sentia suas caminhadas noturnas cada vez mais inibidas pelo perigo da metrópole. Preferia escrever a ler. Preferia desenhar a fotografar. Preferia assistir os filmes com atenção, para não precisar assistir outra vez. Pensava que não valia a pena assistir um filme que já havia te atingido, enquanto existem tantos outros para serem absorvidos. Sentia formigamento na ponta dos dedos e na língua quando ficava ansiosa, seguidos de falta de ar. Poucas coisas a deixavam ansiosas, e no geral, eram filmes.
Preferia cozinhar a comprar pronto, e nos seis anos morando sozinha, havia cozinhado mais de mil pratos. Todas as receitas eram anotadas num papel, seguidos do modo de preparo, observações pessoais e data. Gostava de datar tudo por ser metódica e, novamente, linear. Poderia publicar um livro com suas receitas, mas se apavorava com a ideia de se tornar famosa.
Não gostava de espelhos. Guardava apenas um no armário do banheiro, era suficiente. Não entendia a vaidade.
Nunca havia comprado um guarda-chuva sequer na vida, pois amava a chuva de todas as formas possíveis.
Só se mudaria dali se fosse pra uma casa grande, onde pudesse dividir alegria com um vira-lata chamado Bogarim.
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