Se era durante a manhã que Bogarim dormia por mais tempo, então durante a manhã toda daquele dia Yuna estaria parada diante do cão para desenhá-lo. Tentar desenhar qualquer coisa com o hiperativo animal acordado poderia resultar em algo parecido com amoras atropeladas.
As patas, focinho, a ponta do rabo e uma manchinha no peito eram brancos. O resto era todinho preto e muito brilhoso. Talvez as manchas brancas se juntem com o tempo no vira-lata - cujas características dessas alturas lembravam as de um Beagle.
Horas depois, nada mais ocorria à mente de Yuna senão ainda a inocência cabida no sono do filhote. Quanta vulnerabilidade, quanta delicadeza! Só por observá-lo, ela sentia a casa ser preenchida por calmaria. Talvez essa fosse sua definição de paz pessoal: assistir a um filhote dormindo. Ela sabia que jamais sentiria paz alguma assistindo ao sono de um humano. De quando em vez, ela desejava abrir algumas portas para conhecer melhor as pessoas. Lhe ocorria: talvez ela não fosse a única do mundo a ser como era. Esses pensamentos não duravam mais que duas mordidas na barra de chocolate.
Ao terminar o quadro, instantaneamente teria se escolhido seu mais recente quadro preferido. Havia muito sentimento naquele quadro. Amor era um deles. O par de olhos escuros procurava nas paredes o melhor espaço para pendurá-lo, assim que seco. Toda a bajulação pelo cão - que a essas alturas já estava muito bem acordado e saltitante - despertou nela saudades de alguém que não aparecia há algum tempo.
Não conseguia definir se seria um tanto errado sair às ruas à procura de um ser de essência livre. Todos os tipos de pensamento ocorreram à Yuna. Talvez, Lotus tenha fugido porque não gostava de ter um nome. Talvez até gostasse, mas não gostou do nome que ela escolheu. Talvez ele fosse um gato macho e ela tinha deixado a desejar na atenção disposta ao animal, e por isso ele se rebelou. Talvez o machucado da farpa de dias atrás não tinha cicatrizado tão bem e a gata não aguentou voltar para casa. Talvez a gata nunca tenha considerado aquela casa como sua casa, como um lar, e simplesmente decidiu parar de visitar Yuna. Talvez outra família tenha tirado Lotus de suas aventuras nas ruas. Talvez algum adolescente inconsequente tenha ferido Lotus propositalmente.
A última possibilidade não teria deixado outra alternativa à Yuna senão sair de casa e quebrar sua dieta de introversão. Colocou Bogarim na coleira, pegou uma lanterna e saiu. Era fim de tarde, logo iria escurecer.
Alguns estabelecimentos começavam a fechar suas portas. O parque se preparava para encerrar suas atividades. Caminhar à noite numa cidade grande ainda era algo que a assustava. Sentiu seu coração disparar e seus dedos começaram a formigar. Em seguida, sentiu a usual sensação de estar embriagada. Mecanicamente, Yuna se forçou a controlar seu corpo, algo extremamente desafiador a quem sofre de ansiedade. Não havia tempo para que ela se sentisse mal. Algumas quadras, nenhuma Lotus e um corpo dois terços reabilitado depois, a conclusão estacionava entre os olhares do animal e da humana: essa noite seria infinita.
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