domingo, 2 de novembro de 2014

Trigésimo primeiro dia de Bogarim

Mudou-se para uma casa maior há trinta e dois dias, e há trinta e um, Bogarim a acompanhava.
Bogarim, que ainda não sabe que se chama Bogarim, é bastante dócil. Procura pela atenção de Lotus (quando ela finalmente aparece) e naturalmente, pela atenção de sua companheira humana. Bogarim deve ter agora entre dois e três meses, e está na fase de associação do mundo.
Sua companheira humana, que deve ter entre vinte e vinte e cinco anos, também está na fase de associação do mundo. Ela ainda não entendeu, por exemplo, por que as pessoas insistem em comprar flores quando podem plantar suas próprias flores ou ainda se não terão tempo de regá-las, e porque continuam a comprar animais quando existem tantos a serem adotados. Acima disso, não entende o motivo de comprarem animais que irão passar boa parte da vida trancados e sozinhos, com intuito de fazê-los procriar para vender seus filhotes. Era algo difícil de associar.
Lotus estava em casa pelo terceiro dia seguido e isso começou a preocupá-la. Uma análise mais profunda mostrou uma pequena farpa em uma de suas patas. A dor de imaginar que Lotus estaria sentindo alguma dor era insuportável. Se pudesse, ela sentiria as dores de todos os animais, pra eles nunca perderem a vitalidade cativante de um animal.
Dois estudantes de medicina veterinária e um veterinário de verdade depois, Lotus estava bem. O brilho nos olhos dela deixaram claro que, em nenhum momento ela sentiu que a recuperação seria pesarosa, por possibilitar outra vez o afastamento de Lotus. Lotus era tão livre quanto ela. Um espírito livre jamais penaria pela liberdade de outro.
Bogarim comeu exatamente doze desenhos nos trinta e um dias morando na casa. Ela decidiu que quadros eram mais difíceis de serem estraçalhados, então passou a preferir pinturas. Em seguida, espalhou ossinhos para cachorro pela casa, e deixou alguns estrategicamente próximos ao cavalete das telas. Assim, se Bogarim decidisse roer alguma coisa, esperançosamente escolheria algum osso. A beleza nessa história é que ser instigada a pintar a fez descobrir que gostava ainda mais de pintar quanto a desenhar. Bogarim não fazia ideia de quão importante foi comer aqueles desenhos.

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